Goiânia, Domingo, 18 de outubro de 2026
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Goiás aposta em terras raras para sair da dependência de exportação bruta

Estado reúne 25% da disponibilidade mundial e quer atrair industrialização, mas ainda envia concentrado à China

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Goiás aposta em terras raras para sair da dependência de exportação bruta

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  • Estado reúne 25% da disponibilidade mundial e quer atrair industrialização, mas ainda envia concentrado à China

Goiás abriga uma das maiores reservas de terras raras do planeta, mas ainda não consegue transformar essa riqueza em cadeia industrial completa. O estado concentra cerca de 25% da disponibilidade mundial desses minerais, segundo estimativas do governo estadual, e opera a única unidade de processamento de terras raras pesadas da América Latina, em Minaçu, no norte goiano, desde 2024.


A mina de Serra Verde, no complexo Pela Ema, é a primeira produção comercial de terras raras a partir de argilas de adsorção iônica fora da Ásia. A previsão é alcançar 6.500 toneladas anuais de óxidos totais até 2027. O produto goiano tem vantagem estratégica: é rico em disprósio e térbio, terras raras pesadas escassas e vitais para ímãs de alto desempenho usados em veículos elétricos, turbinas eólicas e equipamentos de defesa.


O Brasil detém a segunda maior reserva mundial de terras raras, com cerca de 21 milhões de toneladas de óxidos, atrás apenas da China. Apesar disso, o país produz menos de 1% do total global. A China responde por 69,2% da produção e controla quase 90% da capacidade de separação e refino.


Além de Minaçu, Goiás desenvolve projetos em Nova Roma, com investimentos previstos de R$ 2,8 bilhões e expectativa de 5.700 empregos pela Aclara Resources, e em Iporá, com R$ 550 milhões em prospecção. Dados da Agência Nacional de Mineração indicam cerca de 360 iniciativas ligadas a terras raras no estado.


Em fevereiro de 2026, a australiana Magnum Mining confirmou descoberta de terras raras do tipo argila de adsorção iônica no projeto Azimuth, próximo à Serra Verde. As ações da companhia subiram 20% na bolsa australiana. Os testes indicaram recuperações de até 75% de óxidos totais e 94% de óxidos magnéticos.


Em setembro de 2026, a norte-americana Rare Earths Americas identificou mineralização de terras raras magnéticas no projeto Homer-A, também em Goiás. Os primeiros resultados apontam concentrações de neodímio, praseodímio, disprósio e térbio em área de aproximadamente 2,15 quilômetros quadrados, com espessura média de quase 20 metros. Um dos furos interceptou 22 metros com teor de 2.298 ppm de óxidos totais, incluindo um intervalo de sete metros com 3.424 ppm. A empresa planeja divulgar a primeira estimativa de recursos minerais em 2027.


O governo goiano também prevê mapear todo o subsolo do estado para identificar reservas minerais, com aeronaves equipadas com sensores geofísicos e radares de penetração no solo. O custo estimado é de R$ 200 milhões, com prazo de até dois anos. O levantamento faz parte do memorando de entendimento firmado com os Estados Unidos em março de 2026 para cooperação em minerais críticos.


A dependência externa é o principal gargalo. Em 2025, a demanda americana por ímãs de terras raras foi de cerca de 48 mil toneladas, enquanto a produção doméstica não passou de 300 toneladas. O Pentágono quer reduzir a dependência de fornecedores chineses para menos de 60% até 2030. Nesse contexto, a mineradora Serra Verde recebeu US$ 565 milhões em financiamento do governo americano em 2025. Em 2026, a mina de Minaçu foi vendida para a americana USA Rare Earth por US$ 2,8 bilhões, com meta de fornecer 6,4 mil toneladas anuais de óxidos até 2027 e contrato de fornecimento de 15 anos.


Goiás também firmou acordo de cooperação com o Japão para ampliar pesquisas e investimentos em minerais críticos. Em 2025, o estado aprovou lei que cria a Política Estadual de Mineração Sustentável e de Fomento à Exploração Estratégica de Terras Raras, com diretrizes para industrialização local, incentivos fiscais e qualificação de mão de obra. A lei prevê incentivo a estudos sobre prospecção, extração, separação, purificação e reaproveitamento. Um decreto posterior criou mecanismos para estimular a verticalização da produção.


A lei também criou um Comitê Estadual de Mineração Sustentável e definiu a destinação de royalties: 20% para a Universidade Estadual de Goiás, 20% para recomposição ambiental, 20% para aterros sanitários, 20% para saneamento e 20% para o Tesouro Estadual. A Secretaria de Indústria, Comércio e Serviços estima que a expansão da exploração possa gerar até 12 mil empregos diretos entre cinco e dez anos.


O governador Daniel Vilela afirmou que o estado exigirá investimentos na agregação de valor. "Buscamos e exigiremos investimentos na agregação de valor desses recursos em nosso estado", declarou. O objetivo é atrair etapas industriais hoje concentradas na China, como separação, metalização, produção de ligas e fabricação de ímãs permanentes de neodímio-ferro-boro.


O caso de Minaçu ilustra o risco. A mina produz concentrado, mas não realiza a separação dos elementos. Todo o material bruto é enviado à China para processamento e depois revendido ao mundo. "Exportar concentrado é repetir o erro histórico cometido com ferro e bauxita", alertou o acadêmico Adalberto Fazzio em artigo publicado em maio de 2026.


A verticalização é o que diferencia uma economia mineradora de uma economia industrial de alta tecnologia. Se Goiás continuar exportando apenas concentrado, a riqueza gerada no estado será uma fração do potencial. A próxima década definirá se o estado construirá aqui a indústria que transforma matéria-prima em potência econômica.

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Tags: #China #Goiás #industrialização #mineração #terras raras

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