Pesquisa aponta como autoridades tentaram "apagar" a memória da tragédia do Césio-137 em Goiânia
Estudo da UFG revela que anúncio do acidente chegou a ser adiado devido a um campeonato de motovelocidade. Tema voltou à tona com o sucesso da série da Netflix.
Por Redação Goiás Agora
Uma dissertação de mestrado da Universidade Federal de Goiás (UFG) documenta como discursos oficiais e decisões institucionais atuaram, ao longo de décadas, para marginalizar a memória das vítimas do acidente com o Césio-137 e minimizar a gravidade do desastre radiológico em Goiânia.
O estudo, conduzido pela pesquisadora Célia Helena Vasconcelos, foi apresentado em 2019, mas ganhou uma nova e imensa relevância nas últimas semanas com o lançamento da minissérie Emergência Radioativa, da Netflix.
A pesquisa observa que o apagamento da tragédia não foi casual, mas fruto do que a autora classifica como “silêncio da conveniência”. Segundo Célia, as autoridades já teriam indícios da contaminação dias antes do anúncio oficial, em setembro de 1987, mas optaram por retardar a comunicação para não comprometer o Campeonato Mundial de Motovelocidade, que ocorria no Autódromo de Goiânia naquele mesmo período. Enquanto isso, a radiação já circulava silenciosamente pela cidade.
Apagamento geográfico e histórico
A pesquisa destaca como o espaço urbano foi modificado para "limpar" o estigma radioativo:
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Césio-137: Série da Netflix revive tragédia em Goiânia e governo propõe aumento de pensões- Rua 57 (Setor Central): Epicentro da tragédia, onde a cápsula foi aberta e o “brilho azul” encantou moradores, hoje é apenas um terreno selado por concreto, sem qualquer placa ou identificação. O memorial prometido para o local nunca saiu do papel.
- Rua 26-A (Setor Aeroporto): Local de contaminação secundária, a via teve seu nome alterado para despistar a memória do acidente.
O estudo de Célia verifica que a juventude atual sabe mais sobre o desastre de Chernobyl, na Ucrânia, do que sobre a tragédia goianiense. Para a pesquisadora, a ausência de preservação documental serviu para proteger o Estado de responsabilidades políticas, enterrando sob camadas de burocracia uma história que sobrevive quase que exclusivamente nos relatos dos sobreviventes.
Uma dor pessoal
O tema é especialmente sensível para Célia Vasconcelos. Na época do acidente, ela vivia a cerca de 100 metros do ferro-velho de Devair Ferreira.
“Tinha uma filha pequena e estava gestante. Eu era monitorada duas vezes ao dia, meu marido precisava fazer aferição. A gente viu a Leide ferida. Meu cachorro foi sacrificado. Ninguém fala, mas matavam gatos à noite. Existe muita coisa que é memória apenas de quem esteve nas imediações”, relata a pesquisadora, que agora planeja transformar sua vivência e pesquisa em um livro.
A ficção como resgate da memória
Se o poder público falhou em preservar a memória, a cultura pop tem ajudado a resgatá-la. A minissérie Emergência Radioativa acompanha a corrida contra o tempo dos profissionais de saúde e físicos para conter o material radioativo na capital goiana.
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Protagonista da produção, o ator Johnny Massaro (nascido em 1992) confessou que não conhecia o caso a fundo. “Quando fui fazer o teste, li a sinopse e achei que era ficção. Pensei: ‘Nossa, que história criativa’. Só depois me disseram que aquilo tinha acontecido de verdade. Foi um choque", relembrou o ator em entrevista recente.
Na trama, Massaro vive Márcio, um dos profissionais envolvidos na tentativa de conter os efeitos da contaminação. “Quando você entende a dimensão da tragédia, percebe que não foi só sobre doença ou morte. Casas tiveram que ser demolidas, roupas e objetos destruídos, memórias inteiras apagadas. As pessoas perderam parte da própria história”, concluiu o ator.
Relembre a tragédia de 1987
Em 13 de setembro de 1987, Goiânia foi palco do maior acidente radiológico do mundo fora de uma usina nuclear. O episódio teve início quando dois catadores de recicláveis encontraram um aparelho de radioterapia abandonado nas antigas instalações do Instituto Goiano de Radioterapia.
Ao desmontá-lo e vendê-lo para o ferro-velho de Devair Ferreira, a cápsula de chumbo foi violada, expondo o pó de Césio-137. Fascinados pelo brilho azul emitido no escuro, Devair e outros moradores manipularam e distribuíram o material entre familiares e vizinhos.
O alerta oficial só foi dado em 29 de setembro, após a esposa de Devair, Maria Gabriela, levar a cápsula de ônibus até a Vigilância Sanitária. Mais de 112 mil pessoas foram triadas no Estádio Olímpico. O acidente resultou em quatro mortes imediatas confirmadas (incluindo a menina Leide das Neves, de 6 anos) e centenas de pessoas com sequelas graves e irreparáveis devido à exposição à radiação.
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