EUA não pretendem respaldar Flávio Bolsonaro como líder do Brasil, diz Reuters
Governo Trump facilitou entrada do senador no país, mas não sinaliza apoio às suas ambições políticas
O governo de Donald Trump não pretende, neste momento, respaldar Flávio Bolsonaro (PL-RJ) como suposto líder legítimo do Brasil, informou a Reuters na quinta-feira (29), com base em relatos de uma autoridade norte-americana e de outra pessoa familiarizada com o assunto, que falaram sob anonimato.
Embora tenha facilitado a entrada do senador nos Estados Unidos, a administração Trump não sinaliza apoio às suas ambições políticas. Segundo as fontes, o presidente norte-americano ainda poderia rever essa posição, mas não há planos atuais nesse sentido. A postura indica uma possível cautela de Washington para evitar novos atritos diplomáticos com o Brasil, depois de meses de instabilidade na relação entre os dois países.
Trump chegou a questionar o resultado da eleição brasileira realizada no domingo, classificando o pleito como aparentemente "manipulado". Ao mesmo tempo, afirmou que não ofereceu apoio a nenhum candidato e declarou ter boa relação com Luiz Inácio Lula da Silva, reeleito com uma vantagem de aproximadamente 3,5 pontos percentuais, contrariando as pesquisas de intenção de voto.
A ida de Flávio para os Estados Unidos também provocou críticas entre setores conservadores brasileiros. Uma terceira autoridade norte-americana afirmou à Reuters que o senador perdeu força política ao entrar em uma espécie de autoexílio. Parte da direita esperava que ele assumisse a liderança da oposição nos próximos anos. Fontes brasileiras ouvidas pela agência avaliam que a saída do parlamentar pode favorecer Lula, uma vez que enfraquece a oposição conservadora no Congresso.
O deslocamento ocorreu após o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), determinar a entrega do passaporte do senador. A decisão atendeu a uma solicitação da Polícia Federal, que investiga Flávio por suspeita de participação em um esquema de lavagem de dinheiro e evasão de divisas. O pedido policial foi apresentado poucos minutos depois da confirmação da vitória de Lula. A proximidade entre os acontecimentos levou alguns conservadores a questionarem a motivação da medida.
Aliados do governo, por outro lado, lembraram que Eduardo Bolsonaro, irmão do senador e ex-deputado que vive nos Estados Unidos, havia sugerido publicamente, dias antes da eleição, que Flávio deixasse o Brasil caso fosse derrotado. Eduardo foi condenado pelo STF em junho por tentar conseguir a interferência do governo Trump no julgamento do pai.
De acordo com informações repassadas por autoridades argentinas, Flávio, a esposa e as duas filhas cruzaram uma ponte em direção ao norte da Argentina às 22h50 de terça-feira. Cerca de 40 minutos depois, embarcaram em um avião fretado. A família seguiu para Miami, com escala no Equador.
Ainda não há informações claras sobre como o senador percorreu os cerca de 1.300 quilômetros entre sua residência, em Brasília, e a fronteira argentina. Também não foi esclarecido como ele deixou o território brasileiro sem ser identificado pelas autoridades alfandegárias. Durante o deslocamento, porém, Flávio manteve contato com representantes do governo norte-americano para tratar de sua entrada no país, segundo uma das fontes ouvidas pela Reuters.
Jason Miller, assessor de Trump próximo à família Bolsonaro, teria ajudado a organizar o voo que partiu da Argentina. A informação também foi publicada pelo jornal The New York Times. Ainda conforme uma autoridade norte-americana, o secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, recomendou que Trump autorizasse a entrada do senador. O presidente concordou com a orientação.
Enquanto a família realizava o trajeto em duas etapas, integrantes do Departamento de Estado discutiram com funcionários do Departamento de Segurança Interna qual seria a alternativa legal para permitir o ingresso do grupo nos Estados Unidos. A solução adotada foi conceder a Flávio e seus familiares o chamado parole humanitário na fronteira. O mecanismo permite a entrada temporária de pessoas em situações de urgência humanitária ou quando há interesse público significativo, explicou a autoridade.
Na quarta-feira (28), Flávio publicou uma carta aberta na rede social X na qual se apresentou como "o presidente eleito". Posteriormente, apagou o texto e divulgou uma nova versão, na qual passou a se definir como o "líder" legítimo do Brasil. O episódio representa mais um capítulo da turbulência política brasileira e dos recentes conflitos diplomáticos entre Brasília e Washington.
Apesar de ter criticado a condução do processo eleitoral no Brasil, Trump evitou fazer ataques diretos a Lula. Na segunda-feira, ao conversar com jornalistas, afirmou: "Gosto do Lula, me dou muito bem com ele". Na mesma ocasião, o presidente norte-americano acrescentou que, em sua avaliação, a eleição havia deixado "uma péssima impressão".
A Casa Branca direcionou à Reuters um pedido de posicionamento ao Departamento de Estado, que não respondeu. O governo brasileiro e um representante de Flávio também não se manifestaram à agência. O pai do senador, Jair Bolsonaro, está preso após ser condenado por tentativa de golpe de Estado para permanecer no poder depois de perder a eleição presidencial de 2022.
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